Junho 22, 2009

Faz-me um desenho?

Um homem, não de muita idade, mas de costas definidas na pele. Não homem que se diz de muitos músculos à mostra, o que precisa estar evidente são costelas e coluna, vertebral por vértebra. Nela, a coluna, derrame todo o alfabeto, como se fosse assim costurada. E debruçado sobre uma mulher ele estará. Não corpo inteiro, só um dos braços a cobre. Uma das pernas está dobrada, mas não muito, o que deve dar aspecto de sossego. O homem está nu e de costas, claro. Ele é mais forte que a mulher deitada ao seu lado. E não estão em posição reta na cama bagunçada e de lençol aos pés, ouvido e quase chão. A moça nem é magra nem gorda, é só feia. Deitada de ventre para cima. No seio, ou ao invés dele, há uma interrogação bonita e, redundantemente, questionável. Nos joelhos, abra parênteses, um em cada, par. O umbigo virou ponto de reticências, três. E quantas mais há numa só pessoa? Na linha das clavículas, aspas. Os corpos não tem cabeças: dê a eles duas almofadas. A menor, dela, substitua caso já tenha pensado numa face qualquer que a fulana possa ter, não tem. Ele tem cabeça-travesseiro como a dela e, aparentemente, mais confortável. Ou mais penosa, talvez. Preencha fronha como bem entender. A única exigência é que o travesseiro feminino seja composto por minhocas, algumas até podem furar o tecido. O dele, traz indícios de voo.

Junho 19, 2009

prostitulições

prostituliçõesAkimi colocou, há dois meses, seu nome (falso) na seção de Serviços Profissionais dos Classificados. Mesmo com o aluguel atrasado, conseguiu, enfim, pagar a prótese de silicone.
Bia, paraibana, saiu de casa aos 15 anos deslumbrada com a idéia de ser modelo em São Paulo. Hoje, não se deixa fotografar por dinheiro nenhum.
Camille tem apenas cinco clientes fixos que, aparentemente, não despertam ciúmes em seu namorado. A justificativa dela é de que somente ele é capaz de fazê-la gozar.
Daisy prometeu pra filha que não vai trabalhar durante o Natal. Para isso, teve de prometer ao chefe que trabalharia em dobro até a véspera da data.
Emily diz pra todo mundo que trabalha “na noite”, crente de que está despistando as evidências. No fundo, só não quer ouvir da própria boca a palavra puta.
Fafá candidatou-se três vezes a uma vaga no BBB. Nos vídeos, sua estratégia de marketing era sempre igual: “Serei eu mesma o tempo todo”.
Grazi sentiu na pele o que é ser descriminada quando quis substituir a mulher de um cliente. Sabia que era melhor do que ela em tudo, menos na forma de aceitar a submissão.
Hellen prometeu parar de fazer programa assim que conseguir dinheiro para voltar à Bahia. Mais uma vez, a promessa se dissipou na forma de sapatos em lojas da Oscar Freire.
Isis adora quando os clientes a tratam como uma mulher normal. Para esses, a transa sai de graça e com uma grande vantagem: nenhum deles precisa ligar no dia seguinte.
Janete tem mais dinheiro que todas as colegas de classe. Enquanto a maioria se mata fazendo estágio, ela já está na penúltima parcela de quitar o próprio escritório.
Lana vai todo ano pra Europa. Diz pra mãe que é gratificação da empresa em que trabalha. A mãe, orgulhosa, conta pra todo mundo no bairro sem saber ao certo o que a filha faz.
Manu vai ter o segundo filho em janeiro. Na sua lista de suspeitos pais estão nada menos do que 26 homens. Todos eles, claro, negam com veemência a paternidade.
Naná foi a última da turma a perder a virgindade. Hoje dá dicas a todas elas de como deixar um homem louco na cama.
Odara foi confundida com um travesti e apanhou violentamente de dois punks. Sem ter pra quem ligar, fugiu por três semanas do patrão até sumirem de vez os hematomas.
Paty fez anal pela primeira vez há uma semana. Detestou tanto que decidiu cobrar em dobro se alguém voltasse a lhe pedir o serviço.
Quiara não quer de jeito nenhum voltar para a casa do pai. Sexo por sexo prefere fazer com anônimos e por uma boa quantia em dinheiro.
Raquel usa como estratégia de marketing a suposta invenção da posição “helicóptero”. São tantas solicitações para conhecer a proeza que ela já pensa em dar curso sobre o assunto.
Sabrina só faz programa com gente famosa e, vira e mexe, é citada como pivô de escândalos matrimoniais. Em uma pasta guarda todas as Caras em que já saiu.
Taty ficou surpresa quando um cliente bem sucedido lhe pediu para inverter os papeis. Depois disso, tornou-se especialista em tirar homens do armário.
Úrsula, de tão bonita, é paga para ir de mão dada com executivos em eventos corporativos. Esperta, aproveita a ocasião para distribuir mais alguns cartões de visita.
Vanusa trabalhou duro durante três meses numa lanchonete em Madri. Cansada da escravidão, decidiu seguir o conselho da mãe. “Filha você é bonita demais pra ficar lavando pratos”.
Xaron voltou a fazer supletivo depois de sete anos só fazendo programa. Não quer mais passar vergonha na reunião de pais e mestres na escola da filha.
Zuleika quer provar para todo mundo que é possível, sim, ser uma ex-puta. Até agora, o único que acreditou em sua história foi um reles escritor que a encontrou num bar.

Maio 26, 2009

O caso do silencio

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[ESBOÇO 1]

Gritos de criança mexiam com seu fígado. Escapamentos de motocicletas tornavam-no primitivo, fera. Alheios, televisores com volume alto entorpeciam-lhe os pensamentos à medida da demência.

Rômulo afligia-se com barulho.

Um dia, sob a ponte, lançou meio tijolo no motoqueiro que lhe estourava as artérias com os baques de vácuo no escape, só pra fazer o efeito do eco.

Maurício, o entregador de lanches, levou um pontapé invisível do tijolo e caiu da moto, estampindo o capacete na sarjeta e, no momento câmara-lenta da queda, fraturou três dedos que se encaixaram, finos, na grelha do bueiro, além do fêmur esquerdo e de sete costelas.

Em casa, após fechar as três folhas das portas e atar todos os velcros dos tecidos grossos nas janelas, Rômulo perfurou seu tímpano direito com aquela agulha, fina, das de se limpar os queimadores do fogão.

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Maio 14, 2009

Memorial

memorial

 

Um homem colecionava fotos. Desde quando comprou sua primeira câmera, mantinha o hábito de fotografar toda, ou quase toda, sua vida e rotina, ampliar as fotos e as encadernar em grupos de cinquenta, na ordem em que foram feitas, sem nenhuma divisão por temas, pessoas, viagens, nada, era uma folha corrida de sua vida. 

Agora, aos quarenta e tantos, já se mudara pela quinta vez, porque necessitava sempre de um cômodo a mais para o arquivo das encadernações. Já eram três os quartos destinados só a isso.

Como se o vento folheasse alguns dos álbuns, como amostra rápida do teor de tal exaustivo registro, veríamos jeans novos sendo desembrulhados, aos dezesseis anos, pasta de dente, aos vinte e dois, sendo colocada na escova, sob o flare do flash no espelho do banheiro de azulejos amarelos; veríamos um cão amarelo, por dezenas de vezes; até acompanharíamos seu crescimento, seus excrementos de filhote no tapete de entrada, sua cuba de ração mordida pela ânsia de cachorro jovem, sua preguiça adulta num gramado de folhas secas, sua cansada cara desfocada entre muita gente e latas de cerveja. Teríamos ideia das mulheres que passaram pela vida desse homem, de seus carros, de seus penteados, pois havia muitos auto-retratos; suas casas, seus sapatos, diversas visões das diversas cidades por onde passou e morou; seu gosto por saladas coloridas, sua falha em nunca arrumar a cama, até algumas cenas de sua vida sexual não muito superlativa.

Um dia, voltando da loja de fotos com mais três pilhas de fotografias dos últimos dois dias, parou, jogou-as numa lixeira pública. Vendeu a casa com todo seu arquivo dentro. E viveu para sempre.

 

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Maio 13, 2009

beleza horizontal

espelhoO terno nunca esteve tão alinhado como naquela tarde. O nó da gravata estava certeiro como nunca. As unhas cortadas e a barba feita rente à pele lhe rejuvenesceram pelo menos uma década. O cabelo todo penteado para trás dava-lhe certo ar de lorde, pinta de homem bem sucedido. A pose séria mas não sisuda escondia seu desleixo habitual. Enfim, o traje, como tinha de ser, era típico para a ocasião. Fosse um dos tradicionais bailes da cidade, estaria elegantemente acima dos demais.
O fato é que, para surpresa de todos, naquele dia ele era estrela da festa. Em silêncio, cada pessoa que chegava era atraída pelo estranhamento da mudança. Fitavam-o com paixão inquieta, expressa por olhares calorosos, embora um tanto ressabiados. Na memória de todos, era como se aquele homem tivesse renascido naquele momento, após passar a vida toda à margem dos sentimentos alheios. Até então, circulava pela vizinhança quase invisivelmente, reconhecido apenas quando emitia alguma expressão de formalidade.
Ele, por sua vez, nunca pareceu preocupar-se com a solidão. Levava rotina pragmática, sem glamour, mas com a consciência de que estava fazendo algo de útil. Seu último emprego foi de porteiro. Trabalho registrado, simples e que garantia a existência de seus únicos passatempos: fumar compulsivamente e bebericar duas doses de Cinzano ao fim da tarde. Depois, ia embora pra casa e só saía quando um novo dia começava a raiar.
Na data do evento, ninguém sabia ao certo quem ou o que o levara até ali. A pompa com a qual circulou a cidade num carro que nenhum cidadão local poderia ter despertou a curiosidade de todos. Em pouco tempo, havia dezenas de transeuntes seguindo a caravana puxada por aquele homem.
Sua entrada foi triunfal, embora um tanto fúnebre, tamanho o silêncio que provocou. Assim que chegou ao seu lugar, a vontade dos presentes, sobretudo as mulheres, era acariciá-lo, sentir na pele pelo menos uma vez o poder de sedução de sua frieza. Estático e inexpressivo, ele parecia vingar-se do descaso com o qual foi tratado durante a vida inteira.
As pessoas até se aproximaram na tentativa de fazê-lo perder o gelo. Mas era impossível. Horas antes de estar ali, foi acometido por mal súbito fulminante e morreu sem dar explicações. Se pudesse assistir ao próprio velório talvez tivesse dado mais importância à vaidade quando ainda tinha tempo.