Julho 23, 2009

Falso vazio

Acendeu o outro cigarro dentro da excentricidade que a vida lhe reservou. Parou diante do pensar… Deixou alguns minutos gastos ali. Chorou o mesmo choro. Nem as lágrimas haviam de ser diferentes. E por que todo o resto lhe seria?

Os pés, dentro das meias sujas de tanto arrastar-se pelo corredor da casa, estão gelados. As mãos tremulam. Outro cigarro. O corpo se auto-deteriora para um renascer futuro em novidade, para não lembrar o que era. Há um frio correndo dentro de um falso vazio. Tudo está ali, ao alcance. E não.

A pressão ameaça nova queda, vive entre quase desmaios. Os sentimentos escorrem na face. Um misto de inspiração e loucura e redundância no mesmo elo alado, inventado. Fundiu-se na fumaça do dia noite. Acompanhou o bailar daquela fumaça branca que tanto se junta ao ar exterior e interior de pulmões. Observa o tempo e sua não-resposta.

Olha ao redor solitário. O outro adormece no aconchego de uma bagunça ajeitada. Descansa sem a paz que lhe é merecedora. A outra entristece, sendo. Chora choro mudo ao lado. Agora frente. Arrisca um desenho de boca com o indicador. Olhos vermelhos de fumaça e sangue esbugalhado. Chora vermelho, tal qual a cor da boca infinita diante de si.

Um leve encostar de lábios, somente um par. Os outros lábios ainda adormecem na escuridão daquela madrugada de cômodo compartilhado. Estão juntos. E não. A outra olha como se fosse atravessar a íris fechada no profundo sono. Olha boca como se fosse escorregar esôfago. Tateia cabelos negros como quando se perde em labirinto que é.

Um espanto. Vulto dentro da fumaceira. A outra assopra, assombra. O outro com olhos abertos de quem sabe o que virá. E espera feliz pelo recomeço. As bocas se juntam acordadas e em descompasso. A outra não adentra, apenas o extrai. Extrai o melhor e o pior que nele, o outro, há. Quer egoísta o todo: uma troca. Asfixiam-se dentro do próprio fôlego. Um beijo de única sucção arranca-lhe a alma, depois que a dela já descansa no ventre do outro, grávido. Deixou o corpo morar no silêncio maior que o dela. Fechou porta e apagou luz.

Ele volta a adormecer, desta vez, não regressa. Ela perambula pelo corredor com apoio das paredes, está fraca. Encontra banheiro. A tesoura lhe arranca fios, se fez outra. Livra-se de mecha por mecha durante o fixo olhar de seu reflexo no mundo em atos, últimos ou primeiros ou insistentes atos. Prepara a mais alta temperatura do chuveiro que a aquece. O corpo ainda gela. O choque térmico se inicia. Cócoras em braços envoltos de joelhos, banho nas costas, banho de lágrimas a confundir-se com gotas.
Agora cabelos e corpo limpos de culpa. Uma necessidade de purificação, renovação de dentro para o fora… Tanto já havia no dentro. Acendeu o próximo cigarro, nua, na cozinha. Voltou para confirmar sua coragem. Sim, o havia feito por gratidão. O matou por interesse nenhum na vida, sabia que o outro não se atraía pela causa vital. O matou para que seja apenas lembrança, a melhor de todas. O matou para que descobrisse que mistério é esse intrínseco na morte. O matou para que saiba quem é deus, e volte para explicar-lhe. O matou para que sinta como não é próprio o corpo, como será além; além do que ela tanto adentrou sem o toque. O matou sem dor, exceto a própria. O matou por um amor que precisa ser morto para, assim, poder-se amar até que a morte os renasça.

Sonhou ao contrário. Ambos acordaram como era de hábito acordar cada um de um lado. Ele sorriu seu riso melhor, um sorrir diferente de todas as manhãs que juntos despertaram. Parecia saber que aquele seria o primeiro de um último sorrir para ela. Os olhos da outra responderam-lhe com riso de não boca. Um riso de olhos que diz “bom dia” ou “bem-vindo à minha vida” ou “tanto que te gosto, mas perdoe deixar-te novamente sozinho”.

A outra adormeceu para o sempre.

Julho 23, 2009

A Terra Prometida de Céu

Céu não nasceu puta, mas desde menina aprendeu a gostar de sexo. Até demais. Perdeu a virgindade aos 13, fez um filho no ano seguinte e abortou o segundo três anos depois.
Céu vivia dizendo que não nasceu pra ser puta, mas era uma das melhores da casa onde trabalhava. Chegava cedo, colocava as coisas em ordem, fazia tudo o que o cliente queria e ainda era caixa quando as outras trepavam.
Céu, no fundo, gostava de ser puta e, apesar de não acreditar em nada desde que um desgraçado gozou na sua cara, dava graças a Deus por ter um trabalho digno.
Céu, hoje, é uma exemplar dona de casa e continua a ser puta, mas de um homem só. Aquele mesmo que gozou na cara dela e que nas horas do aperto ela chamava de Deus

Julho 20, 2009

Texto Porcarioso

Fujo dos afazeres, assim, assim mesmo, desoriente. Há no meu sabonete um pouco da estática que me impele, e me impinge um cheiro de estado de coisa, ali, parado, somente parado – mesmo que meus movimentos sejam contínuos. Corro pra casa sempre, mas a casa ainda têm pouca palavra e as poucos vou repovoando novamente. Retomo meu olho como objeto em si mesmo, e dele, ofereço como oferenda em uma esquina de um bairro de periferia de uma grande cidade qualquer, brasil méxico ou botsuana. Entrego esse olho a dona de casa displicente que lava a calçada depois da chuva mesmo com tanto racionamento de água. Entrego meu olho à multidão atarantada louca pela promoção de celulares pro dia dos namorados. Entrego meu olho pra novela mexicana do meio da tarde e um programa de fofoca qualquer. Entrego meu olho para o cartaz de cão perdido e criança doente. Entrego o meu olho pro gato que se lambe, orelhas em riste de vez quando, por que o barulho do caminhão de gás passa. E já está entregue: não adianta nenhum sociologismo nenhuma grande análise pra depois chegar no Roda Viva na segunda à noite. Entrego então a minha própria entrega, oblíqua, assim, assim mesmo, porcaria de escritor que só têm como premissa o dedo na garganta, o dedo na garganta.
Aturdido, acamado, soluçado, garimpado, o pensamento tenta driblar todo esse maldito processo mecânico que separa esse coisa daqui de dentro dessa tela daqui de fora, tela daqui de fora que me deixo hipnotizar, deixo sim, sou gente desse tempo sem tempo, quero sexo, quero mudança quero qualquer coisa que me faça então um pouco desse sonho ser sonhado e dessa vida ser vivida. Despejado de mim mesmo, meu pensamento não paga aluguel há tempos, não quer ser produtivo, não quer ter tese, não quer ter bolsa da fapesp, não quer nada mais do que esta tentativa vã, inútil, porcariosa que alguns de nós até um dia vir admirar ó como ele escreve bem, com algum crítico tentando encaixar em alguma revista, ou quem sabe, eu mesmo faço um livreco de poesia pra ser vendido na augusta por três conto e porra: o homem que virou suco.
Passa uma colher na tua língua e vê o quanto de um negócio branco, viscoso, que outro dia um especialista em mal hálito falou no programa do ratinho ser a origem de nosso mal hálito. Passa a língua no teu antebraço e um pouco desse negócio branco e viscoso vai ficar ali, bem como, em permuta um pouco do teu pouco ou muito suor – depende da exploração ou da esfoliação do dia – vai deixar um gosto de sal – misturado com axé um paco rabane, tanto faz.
E me vem toda a porcaria do mundo, e me vem a alegria e o desvario e vontade e saudade e possibilidade, sim, há um botão de reset em algum lugar – deu pau! – talvez o botão esteja por aqui, ali, numa esquina em Bogotá, numa associação de bairro na Venezuela, num canto banto na África central, nas mãos de uma garotinha que brinca com os cadarços fora do iso 9001 de uma fábrica da Nike no Camboja. Talvez ali, no encarregado de serviços gerais em uma grande megastore de uma cidade provinciana qualquer do interior dos estados unidos da América – cidade que deve ter tido uma grande tragédia com um  adolescente que pegou uma  arma e matou a professora que já ensinava que Amazônia é patrimônio do mundo e que a capital do Brasil é o Rio de Janeiro, ou quem sabe, Medelin. Em algum lugar – e não será individualizado, focado, o local que esse botão de reset residirá. Tá aqui do lado, eu sei. Por onde comecei mesmo?
Há sim, pela fuga dos afazeres. Mas ten tanta coisa por fazer ainda. Fugir é uma boa alternativa: mas até em marte já tocaram “o coisinha bonitinha do pai!!” o Brasil no espaço, junto com os juros da dívida, o lucro do fenômeno, os parentes desesperados do et de varginha que até colocaram a sua foto de “desaparecido” no caixinha tetra-park da via Láctea. Fugi pra onde? É não é mole não mané, têm que encarar.

Será que o botão de reset é o vizinho chato que chama a polícia toda vez que uma república de estudantes dá uma festa de madrugada? A dúvida que não quer calar… De repente um gesto impensado. Depois de reler em voz alta toda esse dedo na garganta meio mal colocado, paro no ponto final e faço um gesto impensado. Situo minhas mãos na frente da boca e sopro, como se estivesse querendo encher um balão com meu mau hálito causado pela essa coisa viscosa e branca e por alguns cigarros da noite e é só isso: sem sentido algum. Beiro a loucura, e é boa essa sensação. Afinal: se só beiro não vou precisar de nenhum psicólogo, melhor ainda, quem sabe minha futura terapeuta é onde residirá o botão de reset. BRASIL, BOTSUANA, INTERIOR PROVINCIANDO DOS ESTADOS UNIDOS, MÉXICO, MEDELIN, VENEZUELA, AFRICA CENTRAL, BOGOTÁ, MARTE. Alguns lugares que já fui nessa sumidade porcariosa um tanto pós-moderna demais pro meu gosto, mas meu gosto já se foi há tempos, de tanto cigarro consumido. Poderia elencar outros, AFEGANISTÃO, IRAQUE, LIBANO, BÓSNIA, VATICANO – não, lá não está o botão de reset: no máximo uma ave-maria pra ver ser com a intervenção divina o pau da matrix se resolve – meu deus! Quantas drogas os jovens usam hoje! A gente sempre fala que é pra usar só uma, a religião como legitimadora de tudo, mas esses jovens, nunca entendem: Para continuar o Papa Polonês: Vote Benedito 16! Era o slogan do Espírito Santo no programa eleitoral para escolha do novo papa. Deus não quis se manifestar, já que seu partido, há muito tempo se desmanchou, por conta de um limite incalculável com a sua base de eleitores. Têm uma tese, no departamento de política que trata disso. Deus tá até pensando em instaurar o Orçamento Participativo divino, já que assim não ia cria problemas, pois integra sem correr risco. Já chamou o Fórum Divino Mundial, com a desculpa de combater o Fórum Infernal Econômico – mas dizem as más línguas, essas já não têm esse negócio viscoso e esbranquiçado, pois no mundo espiritual a sempre bons especialistas contratados da unicamp que cuidam da higiene bucal de serafins e querubins. Os anjos de maior escalão têm bafo de Paco Rabane. O de menor escalão é de Axé mesmo. Mas voltando as más línguas, porém cheirosas, o Fórum Divino é só uma grande tática pra vender camisetas de São Jorge, o santo mais revolucionário pop do mundo espiritual. Dizem que este casou com o dragão, que na verdade era uma drag e vive enfiando a espada no cu, em eterna lua de mel nas nuvens Paraíso – a Poços de Caldas do mundo espiritual. E esta muito feliz, contou São Francisco de Assis a revista “Asas” do mês passado. Mas isso não importa – nem as intimidades mundanas (sic) de São Jorge muito menos o mundo espiritual, já que de nada podemos fazer sobre ele e voltemos à problemática central da qual quero falar: o dedo na garganta. Cara sai tanta coisa quando tu põe o dedo na garganta, coisa que tu nem comeu ainda. Pôe, enfia o dedo. Viu? Junto a esse miojo comido, tá lá, o meu olho que te entreguei, junto com todas essas palavras que se misturam de verdade agora e não há fuga de afazeres que dê conta de tanta má digestão. Sinto muito por tudo, estou envergonhado: em algum momento, “da falta de sentido, nascerá um sentido, assim como nasce em mim vida alta e leve”.

TE VEJO EM UM OLHAR DE METRô.

Junho 22, 2009

Faz-me um desenho?

Um homem, não de muita idade, mas de costas definidas na pele. Não homem que se diz de muitos músculos à mostra, o que precisa estar evidente são costelas e coluna, vertebral por vértebra. Nela, a coluna, derrame todo o alfabeto, como se fosse assim costurada. E debruçado sobre uma mulher ele estará. Não corpo inteiro, só um dos braços a cobre. Uma das pernas está dobrada, mas não muito, o que deve dar aspecto de sossego. O homem está nu e de costas, claro. Ele é mais forte que a mulher deitada ao seu lado. E não estão em posição reta na cama bagunçada e de lençol aos pés, ouvido e quase chão. A moça nem é magra nem gorda, é só feia. Deitada de ventre para cima. No seio, ou ao invés dele, há uma interrogação bonita e, redundantemente, questionável. Nos joelhos, abra parênteses, um em cada, par. O umbigo virou ponto de reticências, três. E quantas mais há numa só pessoa? Na linha das clavículas, aspas. Os corpos não tem cabeças: dê a eles duas almofadas. A menor, dela, substitua caso já tenha pensado numa face qualquer que a fulana possa ter, não tem. Ele tem cabeça-travesseiro como a dela e, aparentemente, mais confortável. Ou mais penosa, talvez. Preencha fronha como bem entender. A única exigência é que o travesseiro feminino seja composto por minhocas, algumas até podem furar o tecido. O dele, traz indícios de voo.

Junho 19, 2009

prostitulições

prostituliçõesAkimi colocou, há dois meses, seu nome (falso) na seção de Serviços Profissionais dos Classificados. Mesmo com o aluguel atrasado, conseguiu, enfim, pagar a prótese de silicone.
Bia, paraibana, saiu de casa aos 15 anos deslumbrada com a idéia de ser modelo em São Paulo. Hoje, não se deixa fotografar por dinheiro nenhum.
Camille tem apenas cinco clientes fixos que, aparentemente, não despertam ciúmes em seu namorado. A justificativa dela é de que somente ele é capaz de fazê-la gozar.
Daisy prometeu pra filha que não vai trabalhar durante o Natal. Para isso, teve de prometer ao chefe que trabalharia em dobro até a véspera da data.
Emily diz pra todo mundo que trabalha “na noite”, crente de que está despistando as evidências. No fundo, só não quer ouvir da própria boca a palavra puta.
Fafá candidatou-se três vezes a uma vaga no BBB. Nos vídeos, sua estratégia de marketing era sempre igual: “Serei eu mesma o tempo todo”.
Grazi sentiu na pele o que é ser descriminada quando quis substituir a mulher de um cliente. Sabia que era melhor do que ela em tudo, menos na forma de aceitar a submissão.
Hellen prometeu parar de fazer programa assim que conseguir dinheiro para voltar à Bahia. Mais uma vez, a promessa se dissipou na forma de sapatos em lojas da Oscar Freire.
Isis adora quando os clientes a tratam como uma mulher normal. Para esses, a transa sai de graça e com uma grande vantagem: nenhum deles precisa ligar no dia seguinte.
Janete tem mais dinheiro que todas as colegas de classe. Enquanto a maioria se mata fazendo estágio, ela já está na penúltima parcela de quitar o próprio escritório.
Lana vai todo ano pra Europa. Diz pra mãe que é gratificação da empresa em que trabalha. A mãe, orgulhosa, conta pra todo mundo no bairro sem saber ao certo o que a filha faz.
Manu vai ter o segundo filho em janeiro. Na sua lista de suspeitos pais estão nada menos do que 26 homens. Todos eles, claro, negam com veemência a paternidade.
Naná foi a última da turma a perder a virgindade. Hoje dá dicas a todas elas de como deixar um homem louco na cama.
Odara foi confundida com um travesti e apanhou violentamente de dois punks. Sem ter pra quem ligar, fugiu por três semanas do patrão até sumirem de vez os hematomas.
Paty fez anal pela primeira vez há uma semana. Detestou tanto que decidiu cobrar em dobro se alguém voltasse a lhe pedir o serviço.
Quiara não quer de jeito nenhum voltar para a casa do pai. Sexo por sexo prefere fazer com anônimos e por uma boa quantia em dinheiro.
Raquel usa como estratégia de marketing a suposta invenção da posição “helicóptero”. São tantas solicitações para conhecer a proeza que ela já pensa em dar curso sobre o assunto.
Sabrina só faz programa com gente famosa e, vira e mexe, é citada como pivô de escândalos matrimoniais. Em uma pasta guarda todas as Caras em que já saiu.
Taty ficou surpresa quando um cliente bem sucedido lhe pediu para inverter os papeis. Depois disso, tornou-se especialista em tirar homens do armário.
Úrsula, de tão bonita, é paga para ir de mão dada com executivos em eventos corporativos. Esperta, aproveita a ocasião para distribuir mais alguns cartões de visita.
Vanusa trabalhou duro durante três meses numa lanchonete em Madri. Cansada da escravidão, decidiu seguir o conselho da mãe. “Filha você é bonita demais pra ficar lavando pratos”.
Xaron voltou a fazer supletivo depois de sete anos só fazendo programa. Não quer mais passar vergonha na reunião de pais e mestres na escola da filha.
Zuleika quer provar para todo mundo que é possível, sim, ser uma ex-puta. Até agora, o único que acreditou em sua história foi um reles escritor que a encontrou num bar.