Acendeu o outro cigarro dentro da excentricidade que a vida lhe reservou. Parou diante do pensar… Deixou alguns minutos gastos ali. Chorou o mesmo choro. Nem as lágrimas haviam de ser diferentes. E por que todo o resto lhe seria?
Os pés, dentro das meias sujas de tanto arrastar-se pelo corredor da casa, estão gelados. As mãos tremulam. Outro cigarro. O corpo se auto-deteriora para um renascer futuro em novidade, para não lembrar o que era. Há um frio correndo dentro de um falso vazio. Tudo está ali, ao alcance. E não.
A pressão ameaça nova queda, vive entre quase desmaios. Os sentimentos escorrem na face. Um misto de inspiração e loucura e redundância no mesmo elo alado, inventado. Fundiu-se na fumaça do dia noite. Acompanhou o bailar daquela fumaça branca que tanto se junta ao ar exterior e interior de pulmões. Observa o tempo e sua não-resposta.
Olha ao redor solitário. O outro adormece no aconchego de uma bagunça ajeitada. Descansa sem a paz que lhe é merecedora. A outra entristece, sendo. Chora choro mudo ao lado. Agora frente. Arrisca um desenho de boca com o indicador. Olhos vermelhos de fumaça e sangue esbugalhado. Chora vermelho, tal qual a cor da boca infinita diante de si.
Um leve encostar de lábios, somente um par. Os outros lábios ainda adormecem na escuridão daquela madrugada de cômodo compartilhado. Estão juntos. E não. A outra olha como se fosse atravessar a íris fechada no profundo sono. Olha boca como se fosse escorregar esôfago. Tateia cabelos negros como quando se perde em labirinto que é.
Um espanto. Vulto dentro da fumaceira. A outra assopra, assombra. O outro com olhos abertos de quem sabe o que virá. E espera feliz pelo recomeço. As bocas se juntam acordadas e em descompasso. A outra não adentra, apenas o extrai. Extrai o melhor e o pior que nele, o outro, há. Quer egoísta o todo: uma troca. Asfixiam-se dentro do próprio fôlego. Um beijo de única sucção arranca-lhe a alma, depois que a dela já descansa no ventre do outro, grávido. Deixou o corpo morar no silêncio maior que o dela. Fechou porta e apagou luz.
Ele volta a adormecer, desta vez, não regressa. Ela perambula pelo corredor com apoio das paredes, está fraca. Encontra banheiro. A tesoura lhe arranca fios, se fez outra. Livra-se de mecha por mecha durante o fixo olhar de seu reflexo no mundo em atos, últimos ou primeiros ou insistentes atos. Prepara a mais alta temperatura do chuveiro que a aquece. O corpo ainda gela. O choque térmico se inicia. Cócoras em braços envoltos de joelhos, banho nas costas, banho de lágrimas a confundir-se com gotas.
Agora cabelos e corpo limpos de culpa. Uma necessidade de purificação, renovação de dentro para o fora… Tanto já havia no dentro. Acendeu o próximo cigarro, nua, na cozinha. Voltou para confirmar sua coragem. Sim, o havia feito por gratidão. O matou por interesse nenhum na vida, sabia que o outro não se atraía pela causa vital. O matou para que seja apenas lembrança, a melhor de todas. O matou para que descobrisse que mistério é esse intrínseco na morte. O matou para que saiba quem é deus, e volte para explicar-lhe. O matou para que sinta como não é próprio o corpo, como será além; além do que ela tanto adentrou sem o toque. O matou sem dor, exceto a própria. O matou por um amor que precisa ser morto para, assim, poder-se amar até que a morte os renasça.
Sonhou ao contrário. Ambos acordaram como era de hábito acordar cada um de um lado. Ele sorriu seu riso melhor, um sorrir diferente de todas as manhãs que juntos despertaram. Parecia saber que aquele seria o primeiro de um último sorrir para ela. Os olhos da outra responderam-lhe com riso de não boca. Um riso de olhos que diz “bom dia” ou “bem-vindo à minha vida” ou “tanto que te gosto, mas perdoe deixar-te novamente sozinho”.
A outra adormeceu para o sempre.
Akimi colocou, há dois meses, seu nome (falso) na seção de Serviços Profissionais dos Classificados. Mesmo com o aluguel atrasado, conseguiu, enfim, pagar a prótese de silicone.







