Julho 29, 2008...5:03 am

Cidade Satélite

Ir aos comentários

…e mija nas mulheres abaixo dele, nas cabeças gritantes que repudiam o mijo sem parar de gritar, e grita também, como uma tática esportiva para aproveitar tudo quanto é energia, grite, grasne, berre…, resumindo, portanto, aquela encenação, a detrimento de que ela fora forçada, a movimentos sem norte e sem direção, afligindo poucas caras daquelas e muito mais os arbustos que as prendiam atrás. 

__________________________________

Há alguns anos, Frederico só vendia taletes (alguns chamavam “talêtes”, outros “talétes”; por aqui, transcrevo “taletes” para não ter desconforto com os acentos…) no semáforo da Arlinda, lá na Orla Grande.

Lindo, olhos azuis, pele morena, típico galalau tropical… Nada disso; Frederico era comum, meio moreno, meio branco, cabelo ondulado, média estatura, coxas finas, tóraxis estreito e olhos ovais para cima e boca pequena e rápida.

Frederico vendia pamonha, espigas amantegadas, bolo de milho, alguns papelotes lá nas “horas de pico”, curau e ainda fazia a federal ornitologicamente. Encerrava o “segundo ano, e penúltimo”, como teimava em enfatizar, dos estudos “supletivos suplementares com habilitações em diversos âmbitos do mercado de trabalho atual”, e, pensando na Mira e na casa que iriam alugar no Estreito, seguia seguindo o que parecia ser sua saga, ali, naquela fossa humana que o obrigava a inalar suas indigestões contínuas (pois a cidade grande vive com congestões gastrointestinais, ânsias putrefatas, peidos horrendos…), e, besta, vivia vivendo a vida.

Era agosto e o calor só mantinha a temperatura média anual, suplantando em pouco, e para o infarto do Seu Hirzt, médico-astrônomo regional, os vinte e sete graus, devido às correntes fracas que chegaram tarde às costas do estado. Frederico bradava aos três pontos o fracasso em mais uma de suas tentativas em trazer às tábuas de limpagem pelo menos duas dúzias de cirilancos-pretos. Já eram duas semanas e meia que nenhum cirilanco, fosse ele preto, cretino ou froxo, se pegava (pois há três modos de cirilancos: preto, cretino e frouxo. O cirilanco-preto é o mais comum e mais apreciado; o cirilanco-cretino é bem apreciado, mas mais raro e mais difícil em cair nas redes do povo; já o cirilanco-frouxo, ninguém quer, e ele ainda teima em ser tão raro quanto aos outros).

O terceiro-capitão, Frederico, não suportava aquela derrota inconsequente, fortuita. Ainda mais ele, vindo lá da Margem, “chorume-dos-cercos” costumavam chamá-lo.

Era. Era para ser. Era para ser aquele ano de empreitada no mar que o faria começar a viver! Mira seria a noiva, linda e loira, loira de verdade, coisa rara (e, se todos conhecessem além d’áureas, disputada a tapas entres os caboclos da região). Mira era apaixonada por Frederico, menina nova, menina grande. Mira era a menina que tinha iniciado Frederico na sua empreitada definitiva rumo à vida-boa (pois, neste local, “felicidade” se inscreve sob muitas expressões submissas…). Se apaixonara por ela; de verdade, aquela verdade da paixão que sempre parece mentira ou fingimento ou tolice. Lá nos fundos do Bar do Davi já haviam selado projetos, nos pneus do Dimas já marcadas datas, nos pilares de trás da igreja já provadas as carnes e os pecados de um casamento feliz.

Mira era a tez desgarrada, graças-a-deus, para cuidar e confortar seu pai diabético e seus irmãos de cinco e sete anos; ele, xingando a sua (dela?) mãe, num colchonete podre sobre a mesa de jantar no quarto; eles em disputas abstratas de cerol nos céus da Margem. Mira saía no meio da madrugada rumo ao ônibus que a leva ao centro. Dali, ruma pela avenida cheia até o ponto do Bar do Jaci, e lá fica, por duas horas, até Moacyr aparecer com a van da empresa e a levar para as suas oito horas e dezessete minutos de trabalho lá no Distrito.

A poeira cinza do portão de saída todo dia causa coceira no nariz de Mira, que todo dia se penitencia por não usar “devidamente” o plano de saúde da empresa (“esse ouvido que está estranho, essa unha encravada, será que cobre?, ah acupuntura!”…). Sai espirrando e limpando a secreção na manga da camisa branca e azul, que tira na esquina, e passa a exibir, sem espirros, um “top” com influências medievais, cheio de babados, porém decotadíssimo. Pega um táxi com um taxista já conhecido e anônimo. A meia quadra da Mercearia da Shandethe, já ostentava outra Mira em si, já sem a calça de sarja, com um cinto esmeralda (cinto? Não, saia!), pulseiras multicolores, pinturas estrambóticas e saltos raquíticos.

Óia! Óia! Diziam muitos ali à volta do Largo da Priurca, ponto central da cidade e abandonado às vidas defluentes… Óia, óia! Chegou a Óia, povão! Assim, Mira era recebida e conhecida e comprada e vendida ali, no Largo; como a Óia, a meretriz mais visível e mais talentosa. O talento se explica pelas suas incríveis habilidades sexuais, e não só pubianas, dizem os entendidos… Óia era A puta! A mais bonita, apesar de não o ser, a que mais prendia homens, a que mais causava mortes e divórcios, a que mais se prestava, linda, no cartório, a receber testamentos, a que menos cobrava e a que menos dizia quem era e de onde vinha e quanto ganhava e o que sentia e quem amava e porque vivia. Visível, porque era a puta mais bem caracterizada como puta de toda aquela região, o que a tornava uma relativa celebridade. Todos os jovens a adoravam, todas as mães dos jovens a adoravam, todos os pais dos jovens a odiavam de dia e a disputavam à noite na Chipanra (costume local de duelo em que ninguém se machuca).

No começo da manhã, Mira chegava em casa e, numa dessas, Frederico estava lá, já à mesa, com seu pai e seus irmãos de lenço nos pescoços e remela nos olhos.

Frederico era o amor da vida de Mira. Era o taletêro da rua de baixo, com aquelas costeletas aparadas bem altas, quase nem existentes (na verdade, Frederico nem tinha costeletas, só um barba rala no geral do rosto), aquelas mãos limpas e finas de titeroteiro (na verdade, Frecerico tinha mãos gordas e pequenas), aquele andar leve e ostentoso (andava troncho pela direita raquítica de nascença, Frederico…), aquele macho forte e individualista que todos têm a almejar, aquele amor ali ao lado que ela soube reconhecer, Frederico!

Sim, meu pai.
Sim, Sr. Waldomiro.

___________

 

Frederico, além de ser um exemplo de filho, por suportar surras homéricas ou por limpar a bunda da mãe já plebéia e cancerosa três vezes ao dia, quando estava em casa para tal abdicação, nutria a ampla fome de todo jovem menor que os trinta anos de conhecer todo o mundo e todo o amor. Do mundo, asseguro-lhe, conheceu setenta e sete avos de mundo…; já do amor, nem tanto.

Na entre-safra, viram-se e não falaram nada. Mira vinha da empresa já no meio de sua trasmutação. Frederico voltava de um dia inteiro de sol, só os turistas não o perceberam, e, parado na barraca doze do Ezaías, recebia mais uma Orchid meio quente. O copo de lata, de meio litro, comum por ali, tombou, caiu, tirintou na calçada e voou para o joelho direito de um “moça-de-perdidos” (como diziam por ali), era Mira.

Eles, que não se falavam há semanas, fingiram uma cena ali com a saia suja, a cerveja derrubada e tal, e foram os dois para os fundos do bar. Beijaram-se, apalparam-se, sentiram-se, amaram-se, odiaram-se, cumplicitaram-se, enojaram-se, desejaram-se, paladarizaram-se, olharam-se nos olhos e Mira disse: “Vem comigo, seja meu homem. Quero aproveitar tudo o que me resta nessa vida estranha.”

Frederico foi, claro!

Algumas semamas de viagem, ambos caem em delicadeza. Não há comida, Frederico; não há felicidade, Mira. Só há teias de cipó trançado, que deu-lhes o sustento até então, algumas panelas pretas, um facão de cozinha e de caça. Aonde? Frederico percebe isso, corre fora, à direita, à esquerda, engasga. Mira está com a corda firme no pescoço de Frederico e o facão na cintura. O amarra e manda esperar, depois de um beijo meio-quente na boca.

Atado ao caibro que sustenta a palhoça, pode ver, pelas reentrâncias da palha na parede, Mira, na mula, e outras cinco mulheres a pé, atadas à sela. Os impulsos sexuais de bravo homem, que enfim tem sua idealizada orgia com mulheres sem fim prestes a ser paupável, passam em meio segundo. Mira grita lá ao longe: “Derico, fecha os olhos!”.

Ouve mulheres gemerem a seus pés, enquanto Mira o suspende pelas ancas a subir na mesa, na varanda, frente às moitas que fazem cerca à casa. Amarrado e vendado, Frederico quer gritar, quer grasnar, mas nem começa e já ouve:

“É já, Derico! Mostra presse povo!”

E sente baixar sua calça de algodão amalgamado de vida. E mija.

 

5 Comentários

  • Ricardo Fernandes

    Quanta imagem, Estevam! Impressionante o cenário que conseguiu criar. Graças a todas as linhas que usou, pois talento já sabíamos (todos) que tinha. Reparei no selo abaixo (benzadeus), pois benza e, escreva sempre com mais linhas. Eu ao menos quando te leio, fico, absolutamente, perdido no começo e as linhas desconstrõem a minha ansiedade me deixando mais calmo. (rs)

  • Ricardo Fernandes

    Aproveitando, pois esqueci no comentário acima ,,, muito bom o conto. (hehehehehehe)

  • estou de acordo com o Rica…

  • É nóis…

  • Uma das melhores prosas lidas nos últimos anos. Amei.


Deixe uma resposta