Abril 24, 2009...2:09 pm

Só os dispostos se atraem

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A feiúra, como sabe o leitor, é o pior dos defeitos. E não me refiro simplesmente ao tipo físico pelo qual homens e mulheres sucumbem à lógica dos sentimentos. O horrível, o asqueroso de fato, é a falta de amor próprio. Não fosse essa indigna condição, ele até teria se ajeitado por aí com algumas mundanas. Mas, sem dinheiro e auto-estima, acabara num jejum irreversível até os 29 anos.

“Vou completar 30 mês que vem e ainda não sei o que é uma mulher”. Deu para notar que é um caso cuja psicologia moderna poderia ajudar a resolver. “Já tentei. Não adianta. Tudo o que eles me falam eu já sei”. Para os amigos, o bloqueio foi tratado como piada por um bom tempo. Todos achavam hilário quando testemunhavam seu pavor súbito diante das mulheres. O pior é que a sentença era penitenciada por ele próprio, como se buscasse a explicação mais óbvia para a castidade. “Se tivesse olhos verdes…Se fosse alto e magro…Se tivesse isso ou aquilo…”. Enfim, todo o desencanto que via em si mesmo era a deixa para suas incansáveis derrotas amorosas.

Além do divã, também tentou recorrer a outros tipos de terapia. Mas nem as tão necessárias profissionais do sexo conseguiram tirar a virgindade do pobre coitado. “Só de saber que ela não está nem aí para mim já perco o tesão”. Desacreditado (e cada vez mais feio), acabou se molestando em coisas menos, digamos, promíscuas. Trabalho e computador eram suas transas preferidas. Chegou o dia em que até a simples e corriqueira ereção matinal já não fazia mais parte da rotina.

Certa vez, uma priminha de infância pela qual morria de amores, reapareceu cheia de dotes atraentes. Ao saber de sua inexperiência completa no ramo das trepadas casuais propôs-lhe um adendo: “Se você quiser, podemos acabar com isso agora mesmo”. Mal completou a frase e o menino já havia desaparecido da sala, antes mesmo de notar a prima deixar cair a alça da blusinha.

Como fato desses não são fáceis de acreditar, muitas outras mulheres passaram a tirar a limpo a prova de sua falta de libido. As mais exaltadas chegavam a agarrá-lo à força, sem, contudo, conseguir uma mísera bitoca na trave.

A verdade é que, no auge de sua baixa estima, não conseguia sequer olhar-se no espelho. “Sou feio demais para alguém me querer. Sou um monstro, um monstro!!!”. Todos se espantavam com tamanha revolta, até porque havia gente muito pior do que ele por aí de mãos dadas com mulheres de qualidade.

Como qualquer ajuda já não lhe parecia atraente, decidiram por bem excluí-lo de todos os eventos sociais. No início, o isolamento sacramentado pelos amigos caiu-lhe como solução ao seu tormento. Mas chegara a tal ponto que o moço tornara-se invisível diante de todas as pessoas que o cercavam. Um dia, ele sumiu de fato.

Após duas semanas de ausência no trabalho, enfim, deram-se conta de que alguma coisa podia ter acontecido. “Desapareceu. Nem a família sabe onde ele está”. IMLs, hospitais, delegacias, casas de reabilitação. Não havia mais onde procurá-lo. “Será que está morto como indigente em algum lugar?”.

No segundo mês de sumiço, eis que surge o rapaz em meio ao habitual happy hour da turma da empresa. Embora já alcoolizados, todos custaram a acreditar no que viam. Ao lado daquele homem, cujo destino parecia ser o sofrimento eterno, estava uma linda e exuberante morena. “Quem é ela?”. “Será que ela conseguiu tirar o cabaço dele?”. “Deve ser alguma amiga”.

“Deixo apresentar pra vocês a minha namorada”. A reação de todos alternou entre um incômodo silêncio e elogios discretos. Mas ele nem chegou a sentar com os amigos. Apresentou a companheira e zarpou sem dar mais explicações.

No dia seguinte, claro, ele era o único assunto nos corredores da firma. “Quem diria hein”. “Quem te viu, quem te vê”. Ele era só sorrisos e mal conseguia trabalhar de tanto bajular a moça por telefone. Para desespero e incompreensão de todos, a bela passou passou a fazer visitas surpresas ao seu escritório. Beijavam-se como se fossem os dois únicos seres vivos da terra.

Quando tudo parecia entrar em normalidade, a tragédia, sempre ela, teve de dar as caras. Aquele pedaço de mulher o abandonou. “Você é muito feio”, foi a última frase que disse ao rapaz. Como era de se esperar, o coitado revoltou-se de tal forma que passou a espancá-la impiedosamente. Terminado o serviço, ainda ironizou. “Agora você está igual a mim”. Nunca mais quis saber de mulher nenhuma.

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