Maio 13, 2009...7:59 pm

beleza horizontal

Ir aos comentários

espelhoO terno nunca esteve tão alinhado como naquela tarde. O nó da gravata estava certeiro como nunca. As unhas cortadas e a barba feita rente à pele lhe rejuvenesceram pelo menos uma década. O cabelo todo penteado para trás dava-lhe certo ar de lorde, pinta de homem bem sucedido. A pose séria mas não sisuda escondia seu desleixo habitual. Enfim, o traje, como tinha de ser, era típico para a ocasião. Fosse um dos tradicionais bailes da cidade, estaria elegantemente acima dos demais.
O fato é que, para surpresa de todos, naquele dia ele era estrela da festa. Em silêncio, cada pessoa que chegava era atraída pelo estranhamento da mudança. Fitavam-o com paixão inquieta, expressa por olhares calorosos, embora um tanto ressabiados. Na memória de todos, era como se aquele homem tivesse renascido naquele momento, após passar a vida toda à margem dos sentimentos alheios. Até então, circulava pela vizinhança quase invisivelmente, reconhecido apenas quando emitia alguma expressão de formalidade.
Ele, por sua vez, nunca pareceu preocupar-se com a solidão. Levava rotina pragmática, sem glamour, mas com a consciência de que estava fazendo algo de útil. Seu último emprego foi de porteiro. Trabalho registrado, simples e que garantia a existência de seus únicos passatempos: fumar compulsivamente e bebericar duas doses de Cinzano ao fim da tarde. Depois, ia embora pra casa e só saía quando um novo dia começava a raiar.
Na data do evento, ninguém sabia ao certo quem ou o que o levara até ali. A pompa com a qual circulou a cidade num carro que nenhum cidadão local poderia ter despertou a curiosidade de todos. Em pouco tempo, havia dezenas de transeuntes seguindo a caravana puxada por aquele homem.
Sua entrada foi triunfal, embora um tanto fúnebre, tamanho o silêncio que provocou. Assim que chegou ao seu lugar, a vontade dos presentes, sobretudo as mulheres, era acariciá-lo, sentir na pele pelo menos uma vez o poder de sedução de sua frieza. Estático e inexpressivo, ele parecia vingar-se do descaso com o qual foi tratado durante a vida inteira.
As pessoas até se aproximaram na tentativa de fazê-lo perder o gelo. Mas era impossível. Horas antes de estar ali, foi acometido por mal súbito fulminante e morreu sem dar explicações. Se pudesse assistir ao próprio velório talvez tivesse dado mais importância à vaidade quando ainda tinha tempo.

4 Comentários


Deixe uma resposta