Maio 14, 2009...9:29 pm

Memorial

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Um homem colecionava fotos. Desde quando comprou sua primeira câmera, mantinha o hábito de fotografar toda, ou quase toda, sua vida e rotina, ampliar as fotos e as encadernar em grupos de cinquenta, na ordem em que foram feitas, sem nenhuma divisão por temas, pessoas, viagens, nada, era uma folha corrida de sua vida. 

Agora, aos quarenta e tantos, já se mudara pela quinta vez, porque necessitava sempre de um cômodo a mais para o arquivo das encadernações. Já eram três os quartos destinados só a isso.

Como se o vento folheasse alguns dos álbuns, como amostra rápida do teor de tal exaustivo registro, veríamos jeans novos sendo desembrulhados, aos dezesseis anos, pasta de dente, aos vinte e dois, sendo colocada na escova, sob o flare do flash no espelho do banheiro de azulejos amarelos; veríamos um cão amarelo, por dezenas de vezes; até acompanharíamos seu crescimento, seus excrementos de filhote no tapete de entrada, sua cuba de ração mordida pela ânsia de cachorro jovem, sua preguiça adulta num gramado de folhas secas, sua cansada cara desfocada entre muita gente e latas de cerveja. Teríamos ideia das mulheres que passaram pela vida desse homem, de seus carros, de seus penteados, pois havia muitos auto-retratos; suas casas, seus sapatos, diversas visões das diversas cidades por onde passou e morou; seu gosto por saladas coloridas, sua falha em nunca arrumar a cama, até algumas cenas de sua vida sexual não muito superlativa.

Um dia, voltando da loja de fotos com mais três pilhas de fotografias dos últimos dois dias, parou, jogou-as numa lixeira pública. Vendeu a casa com todo seu arquivo dentro. E viveu para sempre.

 

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