
[ESBOÇO 1]
Gritos de criança mexiam com seu fígado. Escapamentos de motocicletas tornavam-no primitivo, fera. Alheios, televisores com volume alto entorpeciam-lhe os pensamentos à medida da demência.
Rômulo afligia-se com barulho.
Um dia, sob a ponte, lançou meio tijolo no motoqueiro que lhe estourava as artérias com os baques de vácuo no escape, só pra fazer o efeito do eco.
Maurício, o entregador de lanches, levou um pontapé invisível do tijolo e caiu da moto, estampindo o capacete na sarjeta e, no momento câmara-lenta da queda, fraturou três dedos que se encaixaram, finos, na grelha do bueiro, além do fêmur esquerdo e de sete costelas.
Em casa, após fechar as três folhas das portas e atar todos os velcros dos tecidos grossos nas janelas, Rômulo perfurou seu tímpano direito com aquela agulha, fina, das de se limpar os queimadores do fogão.
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4 Comentários
Maio 27, 2009 às 11:50 pm
Uma vez, lendo irresponsavelmente Nietszche como literatura, vi algo como: “Amo Aquele que se envergonha quando o dado cai em seu favor, e que então pergunta: ‘Sou um jogador desleal?’ — pois quer ir ao fundo.”
Sempre quis acertar meio tijolo nos motoqueiros que estouram com suas motos do inferno, mas jamais hesitei sobre meus tímpanos. Ainda fal muito pra esse mendigo aqui ser “Além-do-Homem”.
Pá variá: ducaralho.
Maio 30, 2009 às 12:25 pm
É do “silencio” mesmo ou é do “silêncio”? Curiosidade para saber se foi de propósito. Independentemente disso, congratulations bem barulhentas… com beijo estalado no ouvido de deixar surdo.
Maio 30, 2009 às 9:27 pm
É silÊncio… Problema de bios…rs
Julho 22, 2009 às 3:41 pm
Agonia. Imaginando a agulha no tímpano…