Maio 26, 2009

O caso do silencio

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[ESBOÇO 1]

Gritos de criança mexiam com seu fígado. Escapamentos de motocicletas tornavam-no primitivo, fera. Alheios, televisores com volume alto entorpeciam-lhe os pensamentos à medida da demência.

Rômulo afligia-se com barulho.

Um dia, sob a ponte, lançou meio tijolo no motoqueiro que lhe estourava as artérias com os baques de vácuo no escape, só pra fazer o efeito do eco.

Maurício, o entregador de lanches, levou um pontapé invisível do tijolo e caiu da moto, estampindo o capacete na sarjeta e, no momento câmara-lenta da queda, fraturou três dedos que se encaixaram, finos, na grelha do bueiro, além do fêmur esquerdo e de sete costelas.

Em casa, após fechar as três folhas das portas e atar todos os velcros dos tecidos grossos nas janelas, Rômulo perfurou seu tímpano direito com aquela agulha, fina, das de se limpar os queimadores do fogão.

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Maio 14, 2009

Memorial

memorial

 

Um homem colecionava fotos. Desde quando comprou sua primeira câmera, mantinha o hábito de fotografar toda, ou quase toda, sua vida e rotina, ampliar as fotos e as encadernar em grupos de cinquenta, na ordem em que foram feitas, sem nenhuma divisão por temas, pessoas, viagens, nada, era uma folha corrida de sua vida. 

Agora, aos quarenta e tantos, já se mudara pela quinta vez, porque necessitava sempre de um cômodo a mais para o arquivo das encadernações. Já eram três os quartos destinados só a isso.

Como se o vento folheasse alguns dos álbuns, como amostra rápida do teor de tal exaustivo registro, veríamos jeans novos sendo desembrulhados, aos dezesseis anos, pasta de dente, aos vinte e dois, sendo colocada na escova, sob o flare do flash no espelho do banheiro de azulejos amarelos; veríamos um cão amarelo, por dezenas de vezes; até acompanharíamos seu crescimento, seus excrementos de filhote no tapete de entrada, sua cuba de ração mordida pela ânsia de cachorro jovem, sua preguiça adulta num gramado de folhas secas, sua cansada cara desfocada entre muita gente e latas de cerveja. Teríamos ideia das mulheres que passaram pela vida desse homem, de seus carros, de seus penteados, pois havia muitos auto-retratos; suas casas, seus sapatos, diversas visões das diversas cidades por onde passou e morou; seu gosto por saladas coloridas, sua falha em nunca arrumar a cama, até algumas cenas de sua vida sexual não muito superlativa.

Um dia, voltando da loja de fotos com mais três pilhas de fotografias dos últimos dois dias, parou, jogou-as numa lixeira pública. Vendeu a casa com todo seu arquivo dentro. E viveu para sempre.

 

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Maio 13, 2009

beleza horizontal

espelhoO terno nunca esteve tão alinhado como naquela tarde. O nó da gravata estava certeiro como nunca. As unhas cortadas e a barba feita rente à pele lhe rejuvenesceram pelo menos uma década. O cabelo todo penteado para trás dava-lhe certo ar de lorde, pinta de homem bem sucedido. A pose séria mas não sisuda escondia seu desleixo habitual. Enfim, o traje, como tinha de ser, era típico para a ocasião. Fosse um dos tradicionais bailes da cidade, estaria elegantemente acima dos demais.
O fato é que, para surpresa de todos, naquele dia ele era estrela da festa. Em silêncio, cada pessoa que chegava era atraída pelo estranhamento da mudança. Fitavam-o com paixão inquieta, expressa por olhares calorosos, embora um tanto ressabiados. Na memória de todos, era como se aquele homem tivesse renascido naquele momento, após passar a vida toda à margem dos sentimentos alheios. Até então, circulava pela vizinhança quase invisivelmente, reconhecido apenas quando emitia alguma expressão de formalidade.
Ele, por sua vez, nunca pareceu preocupar-se com a solidão. Levava rotina pragmática, sem glamour, mas com a consciência de que estava fazendo algo de útil. Seu último emprego foi de porteiro. Trabalho registrado, simples e que garantia a existência de seus únicos passatempos: fumar compulsivamente e bebericar duas doses de Cinzano ao fim da tarde. Depois, ia embora pra casa e só saía quando um novo dia começava a raiar.
Na data do evento, ninguém sabia ao certo quem ou o que o levara até ali. A pompa com a qual circulou a cidade num carro que nenhum cidadão local poderia ter despertou a curiosidade de todos. Em pouco tempo, havia dezenas de transeuntes seguindo a caravana puxada por aquele homem.
Sua entrada foi triunfal, embora um tanto fúnebre, tamanho o silêncio que provocou. Assim que chegou ao seu lugar, a vontade dos presentes, sobretudo as mulheres, era acariciá-lo, sentir na pele pelo menos uma vez o poder de sedução de sua frieza. Estático e inexpressivo, ele parecia vingar-se do descaso com o qual foi tratado durante a vida inteira.
As pessoas até se aproximaram na tentativa de fazê-lo perder o gelo. Mas era impossível. Horas antes de estar ali, foi acometido por mal súbito fulminante e morreu sem dar explicações. Se pudesse assistir ao próprio velório talvez tivesse dado mais importância à vaidade quando ainda tinha tempo.

Abril 24, 2009

Só os dispostos se atraem

A feiúra, como sabe o leitor, é o pior dos defeitos. E não me refiro simplesmente ao tipo físico pelo qual homens e mulheres sucumbem à lógica dos sentimentos. O horrível, o asqueroso de fato, é a falta de amor próprio. Não fosse essa indigna condição, ele até teria se ajeitado por aí com algumas mundanas. Mas, sem dinheiro e auto-estima, acabara num jejum irreversível até os 29 anos.

“Vou completar 30 mês que vem e ainda não sei o que é uma mulher”. Deu para notar que é um caso cuja psicologia moderna poderia ajudar a resolver. “Já tentei. Não adianta. Tudo o que eles me falam eu já sei”. Para os amigos, o bloqueio foi tratado como piada por um bom tempo. Todos achavam hilário quando testemunhavam seu pavor súbito diante das mulheres. O pior é que a sentença era penitenciada por ele próprio, como se buscasse a explicação mais óbvia para a castidade. “Se tivesse olhos verdes…Se fosse alto e magro…Se tivesse isso ou aquilo…”. Enfim, todo o desencanto que via em si mesmo era a deixa para suas incansáveis derrotas amorosas.

Além do divã, também tentou recorrer a outros tipos de terapia. Mas nem as tão necessárias profissionais do sexo conseguiram tirar a virgindade do pobre coitado. “Só de saber que ela não está nem aí para mim já perco o tesão”. Desacreditado (e cada vez mais feio), acabou se molestando em coisas menos, digamos, promíscuas. Trabalho e computador eram suas transas preferidas. Chegou o dia em que até a simples e corriqueira ereção matinal já não fazia mais parte da rotina.

Certa vez, uma priminha de infância pela qual morria de amores, reapareceu cheia de dotes atraentes. Ao saber de sua inexperiência completa no ramo das trepadas casuais propôs-lhe um adendo: “Se você quiser, podemos acabar com isso agora mesmo”. Mal completou a frase e o menino já havia desaparecido da sala, antes mesmo de notar a prima deixar cair a alça da blusinha.

Como fato desses não são fáceis de acreditar, muitas outras mulheres passaram a tirar a limpo a prova de sua falta de libido. As mais exaltadas chegavam a agarrá-lo à força, sem, contudo, conseguir uma mísera bitoca na trave.

A verdade é que, no auge de sua baixa estima, não conseguia sequer olhar-se no espelho. “Sou feio demais para alguém me querer. Sou um monstro, um monstro!!!”. Todos se espantavam com tamanha revolta, até porque havia gente muito pior do que ele por aí de mãos dadas com mulheres de qualidade.

Como qualquer ajuda já não lhe parecia atraente, decidiram por bem excluí-lo de todos os eventos sociais. No início, o isolamento sacramentado pelos amigos caiu-lhe como solução ao seu tormento. Mas chegara a tal ponto que o moço tornara-se invisível diante de todas as pessoas que o cercavam. Um dia, ele sumiu de fato.

Após duas semanas de ausência no trabalho, enfim, deram-se conta de que alguma coisa podia ter acontecido. “Desapareceu. Nem a família sabe onde ele está”. IMLs, hospitais, delegacias, casas de reabilitação. Não havia mais onde procurá-lo. “Será que está morto como indigente em algum lugar?”.

No segundo mês de sumiço, eis que surge o rapaz em meio ao habitual happy hour da turma da empresa. Embora já alcoolizados, todos custaram a acreditar no que viam. Ao lado daquele homem, cujo destino parecia ser o sofrimento eterno, estava uma linda e exuberante morena. “Quem é ela?”. “Será que ela conseguiu tirar o cabaço dele?”. “Deve ser alguma amiga”.

“Deixo apresentar pra vocês a minha namorada”. A reação de todos alternou entre um incômodo silêncio e elogios discretos. Mas ele nem chegou a sentar com os amigos. Apresentou a companheira e zarpou sem dar mais explicações.

No dia seguinte, claro, ele era o único assunto nos corredores da firma. “Quem diria hein”. “Quem te viu, quem te vê”. Ele era só sorrisos e mal conseguia trabalhar de tanto bajular a moça por telefone. Para desespero e incompreensão de todos, a bela passou passou a fazer visitas surpresas ao seu escritório. Beijavam-se como se fossem os dois únicos seres vivos da terra.

Quando tudo parecia entrar em normalidade, a tragédia, sempre ela, teve de dar as caras. Aquele pedaço de mulher o abandonou. “Você é muito feio”, foi a última frase que disse ao rapaz. Como era de se esperar, o coitado revoltou-se de tal forma que passou a espancá-la impiedosamente. Terminado o serviço, ainda ironizou. “Agora você está igual a mim”. Nunca mais quis saber de mulher nenhuma.

Abril 14, 2009

Medo e incerteza

Qual não seria a surpresa de Guilherme ao entrar em casa e, como de costume, chamar, e no silêncio persistente recorrer à espreita na porta do quarto para velar o sono de seu amor e encontrar Marcelo suado agarrado às pernas que eram cúplices suas e somente suas, como declarado no dia do casamento? Qual não seria sua surpresa ao ver, em gancho, os braços de Marcelo envolvendo aquelas pernas frontalmente e aqueles calcanhares, por anos tratados a leite de rosas, apoiados nas costelas dele a se retorcer?

O quarto do casal, ninho inefável do amor contraído e construído ao longo das piores asperezas e das mais rasgadas alegrias, das noites ébrias e do inverno de São Petersburgo abrigava naquela noite a fúria da carne, e qual não seria a surpresa de Guilherme vê-lo devassado e maculado à custa de um devaneio e da negação da culpa, que rondava a vida cética e cerebral que viviam; que ressoava Dostoiévski declamado em russo gutural e taças de vinho tinto — quando não, vodca. As saudades negadas de um casal sem família, cujo local de nascimento era mero equívoco geográfico coziam a fios de ouro o brasão selado por eles da nova linhagem, do princípio de história, do começo de tudo no aqui e no agora que escolheram e não o imposto pelo parto indesejado e a infância miserável no interior do Rio de Janeiro; eram a argamassa da casinha projetada pelas mãos arquitetas formadas juntas ainda no Brasil, onde se conheceram.

Mas qual não seria o desespero de Guilherme ao ter que aceitar a verdade gritando-lhe na fronte o descaso e o descompromisso, e as taças caídas ainda com vinho, na beira da cama, embebendo o tapete da mistura etílica de saliva e fluidos de corpos transbordando desejo?

Mais um dia em que sairia tarde do trabalho, passaria na floricultura antes da estação do metrô, feliz em evitar o aperto das seis horas da tarde, levaria tulipas — para o mesmo vaso que dera a Bento no aniversário de um ano de casados — para renovar a promessa de jamais espantar o vulto da morte com flores de plástico.

Qual não seria a amargura de Guilherme se chegasse antes da despedida de Marcelo, ou se visse Bento ainda de cueca suspirar agarrado ao batente, segurando a porta com o ombro a ver o cavalo branco do príncipe sem rosto e sem história ser engolido pela poeira? O que seria de Guilherme se não atrasasse costumeiramente às quartas-feiras, dia da troca das tulipas, dos olhos nos olhos, dos votos sinceros, do beijo da primeira vez: com gosto de medo e incerteza?